
Ontem, da janela do meu quarto, assisti a um 11 de Setembro caseiro.
Logo pela manhã chegaram os terroristas, cada um munido de sua motosserra. Traziam também andaimes, e cordas, e camiões, e muita boa-vontade. Começaram a cortar, uma-a-uma, todas as folhas da palmeira, sem dó nem piedade, sem o mínimo de hesitação. Findo o serviço, foi vê-los a atar cordas à volta da palmeira e zás!, sai daí. Ai, que dor! Seguiu-se a irmã gémea, e aí já só me apetecia desatar a correr escadas fora e agarrar-me à dita, para que não a levassem. O meu pai também estava atrapalhado, estava que eu vi! Bem sei que não há ‘símbolo máximo de parolice’ maior do que ter palmeiras no meio do jardim, mas isso é na casa dos outros, não na minha! E eu, que adoro essas foleirices!
Dizia a minha progenitora, toda revoltada, que as palmeiras lhe tiravam a vista, que já não conseguia ver o mar, que as palmeiras lhe tiravam o sol e deixavam cair ‘aquelas bolinhas amarelas chatas’. Esquecia-se ela que foi o meu pai e o meu avô a plantarem as ditas. Esquecia-se ela que era lá que me escondia sempre que jogávamos às escondidas, com a Diana e a Carol, com o Toninho e a Catarina, com o Pedro. Esquecia-se ela que foi debaixo da palmeira que tomávamos banhos de mangueira, ao vir da praia, com a Vanessa e a Carina. Esquecia-se ela que quando íamos brincar para o baloiço com a Isabel e o Paulo, o Pedro e o Jorge, ‘o último a tocar na palmeira era burro’! Esquecia-se ela que foi lá que fizemos tantas festas de anos da Joana e era lá que furávamos as bolas. Esquecia-se ela que era lá que tantas vezes o avô se sentava à sombra, com a sua cadeira de plástico, a comer melancia. Esquecia-se ela que as fotos da Comunhões, Crisma e Mais-não-sei-o-quê, eram tiradas lá, para que não restassem dúvidas do nosso bom gosto. Esquecia-se ela que era por causa dos ninhos das palmeiras que o meu pai ficava entretido durante horas no alpendre, com a sua loira, nas madrugadas quentes de Verão. Esquecia-se ela que era debaixo delas que jogávamos às ‘escovas’ e à ‘garrafa de veneno’, aos ‘tazos’ e às ‘raquetes’, e era lá que comíamos as farturas do S. Bartolomeu, depois do fogo. Agora tudo o que resta são dois monos no meio do jardim. Não é lindo, pois que não é, mas agora já temos sol a entrar pela janela…
E agora, Mãe, és tu que ‘vives naquela casa que tem as palmeiras’?



