quinta-feira, 24 de julho de 2008

Obrigada, MEU JOÃO!

De Menino de Ouro a Verdadeiro Artista, de Eterno Capitão a Eterno Ídolo… é assim que te irei recordar sempre!



No outro dia puseste um ponto final na tua carreira. Disseste que já não tinhas a mesma disponibilidade física e psicológica para continuar a treinar e a jogar, e eu olhava-te na TV e não acreditava que aquilo se estava mesmo a passar. ‘Tás palerma? Não sabes que o meu coração ainda não acompanha a Razão, fica sempre uns passos atrás, a dar colinho? A verdade é que estava plenamente confiante que ias jogar até virares cinza, sempre com essa língua de fora, sempre com esse cabelo loiro, sempre com o ‘8’ nas costas, e sempre com esse jeitinho de correr. Dispensavas o nome e o número nas costas, dedicavam-te cânticos e aplaudiam-te de pé. Fizeste parte dos meus delírios de criança, dos meus vícios de adolescente, e tens contrato vitalício assinado comigo, combinado? Contigo aprendi a gostar de futebol, e foste tu o responsável pela minha paixão pelo Benfica e por Portugal, e a minha simpatia pelo Boavista e Braga… Por ti perdi a noção do ridículo, e por ti coleccionei camisolas, autógrafos, posters e recortes de jornal, cromos, almofadas, peluches, cachecóis, bandeiras, canecas…
Foste o rosto do Glorioso nos anos 90, e eras a referência para a fornada que saiu lá para os anos 80 e picos. Falavam-nos do Eusébio e do Shéu, do Torres e do Chalana, do Coluna, do Bento e do Veloso, como quem nos quer convencer que o Benfica era GRAAANDE, mas nós queríamos lá saber… tínhamos-te a ti, caramba!, para quê ir buscar velhas glórias? Os putos queriam ser todos como tu. Nas aulas de Educação Física era ver a camisola 8 voar mais rápido, e quantos não deixaram crescer o cabelinho? Por ti, pedi à minha mãe que passasse a comprar leite Parmalat, porque era o que trazias na camisola, e acreditava piamente que era aquele que bebias de manhã com as bolachinhas. Por ti, também dizia que a minha sobremesa preferida eram crepes de chocolate, só nunca fui na moda das tripas à moda do Porto, desculpa! Foi por tua causa que me convenceram que ter ‘nome de rapaz’ não era assim tão mau, e é por tua causa que o meu primeiro puto se vai chamar João. Brincadeirinha. Quer dizer…
Bem, podia estar aqui até amanhã, mas passemos aos OBRIGADA! Obrigada pelos 6-3, e por me teres dado uma história a contar aos netos. Obrigada por levares os meus pais à loucura enquanto a cassete do Benfica não ficasse gasta de um lado e de outro, durante as férias. Obrigada por me teres ensinado o que era 'A Mística', sem manuais e historiais. Obrigada por muitos ‘5 minutos à Benfica’. Obrigada por tantos flash, de tantos jogos. Obrigada pelo mergulho de cabeça àquele cruzamento do Rui no Euro’2000. Meu Deus, o que foi aquilo? Obrigada por me teres feito guardar jornais de há mais de dez anos. Queres ver ‘A Bola’ do contrato vitalício?, da saída da Luz?, do jogo contra a Inglaterra?, que queres que te mostre? Obrigada pela entrevista que concedeste à nossa associação, mesmo sabendo que não ias ter nenhum holofote apontado, era só um jornal manhoso de jovens, numa terrinha perdida no Norte. Obrigada por me fazeres ir à Luz regularmente e pelo pão com chouriço à saída. Obrigada pelas romarias ao estádio. Obrigada pelo mail. Obrigada pelas discussões de futebol à mesa, de 2ª a domingo, de dia e de noite, ‘de sol’ ou ‘de chuva’. Obrigada por me fazeres sentir a pessoa mais feliz do mundo quando o meu GloriosoSLB está de boa saúde. Obrigada pela alegria da eliminação do Manchester na Luz, e a vitória ao Liverpool logo a seguir. Obrigada por me fazeres acreditar no clube sempre, mesmo em jogos como os de Vigo, em que apetece atirar a mesa pelo ar. Obrigada por me teres convencido que, tanto no futebol como na vida é possível marcar um golo mesmo nos descontos. Obrigada pelos jogos em Braga, no Rio Ave, no Varzim, no Bessa. Obrigada pelo ranho gasto estes anos todos. Obrigada por me fazeres disparar a epinefrina sempre que algum sorteio importante está à porta. Obrigada pelas noites em branco. Obrigada pelas sms aos tripeiros e lagartos. Obrigada por me teres feito ir ao último jogo da época passada, me despedir do Rui, e aplaudir de pé aqueles marmanjos coxos, depois do desastre que foi toda a época. Obrigada pelas sms que recebi no dia em que te despediste. Obrigada por me teres feito acreditar que os anos pares são sempre bem melhores que os ímpares. Obrigada pela voz embargada na despedida do Glorioso. Obrigada pela Geração de Ouro. Obrigada por teres feito carreira cá. Obrigada pelos 2 números e as 2 estrelas no Euromilhões do outro dia. Obrigada por me dares a dose de loucura suficiente para escrever mais um texto lamechas, mesmo sabendo que a minha cota era de um por mês, e já o ter gasto na semana passada. Obrigada, obrigada, obrigada!



Não pensei que acabasses assim. Não tiveste direito a destaque na primeira página nos desportivos. Não te fizeram um jogo de despedida, como fizeram ao nosso Maestro ou como certamente terá o nosso Figo. Não tive oportunidade de te dizer adeus, e vá lá, de chorar durante praí umas 48 horas seguidas. Não saíste em braços, pela porta grande. Contudo, basta ler os comentários à notícia da tua retirada, para perceber que o povo (que parecia adormecido) promete não te esquecer e te reconhece o talento e a genialidade, a irreverência e a paixão.

E é assim! Serás sempre o meu titular indiscutível, e hei-de tirar-te sempre aos 89’, para sentires um terceiro anel a tremer e um estádio pronto a explodir…

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