terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Ataque às palmeiras gêmeas


Ontem, da janela do meu quarto, assisti a um 11 de Setembro caseiro.

Logo pela manhã chegaram os terroristas, cada um munido de sua motosserra. Traziam também andaimes, e cordas, e camiões, e muita boa-vontade. Começaram a cortar, uma-a-uma, todas as folhas da palmeira, sem dó nem piedade, sem o mínimo de hesitação. Findo o serviço, foi vê-los a atar cordas à volta da palmeira e zás!, sai daí. Ai, que dor! Seguiu-se a irmã gémea, e aí já só me apetecia desatar a correr escadas fora e agarrar-me à dita, para que não a levassem. O meu pai também estava atrapalhado, estava que eu vi! Bem sei que não há ‘símbolo máximo de parolice’ maior do que ter palmeiras no meio do jardim, mas isso é na casa dos outros, não na minha! E eu, que adoro essas foleirices!

Dizia a minha progenitora, toda revoltada, que as palmeiras lhe tiravam a vista, que já não conseguia ver o mar, que as palmeiras lhe tiravam o sol e deixavam cair ‘aquelas bolinhas amarelas chatas’. Esquecia-se ela que foi o meu pai e o meu avô a plantarem as ditas. Esquecia-se ela que era lá que me escondia sempre que jogávamos às escondidas, com a Diana e a Carol, com o Toninho e a Catarina, com o Pedro. Esquecia-se ela que foi debaixo da palmeira que tomávamos banhos de mangueira, ao vir da praia, com a Vanessa e a Carina. Esquecia-se ela que quando íamos brincar para o baloiço com a Isabel e o Paulo, o Pedro e o Jorge, ‘o último a tocar na palmeira era burro’! Esquecia-se ela que foi lá que fizemos tantas festas de anos da Joana e era lá que furávamos as bolas. Esquecia-se ela que era lá que tantas vezes o avô se sentava à sombra, com a sua cadeira de plástico, a comer melancia. Esquecia-se ela que as fotos da Comunhões, Crisma e Mais-não-sei-o-quê, eram tiradas lá, para que não restassem dúvidas do nosso bom gosto. Esquecia-se ela que era por causa dos ninhos das palmeiras que o meu pai ficava entretido durante horas no alpendre, com a sua loira, nas madrugadas quentes de Verão. Esquecia-se ela que era debaixo delas que jogávamos às ‘escovas’ e à ‘garrafa de veneno’, aos ‘tazos’ e às ‘raquetes’, e era lá que comíamos as farturas do S. Bartolomeu, depois do fogo. Agora tudo o que resta são dois monos no meio do jardim. Não é lindo, pois que não é, mas agora já temos sol a entrar pela janela…

E agora, Mãe, és tu que ‘vives naquela casa que tem as palmeiras’?

4 comentários:

Korsakoff disse...

Eu, como futura arquitecta paisagista, estou em choque. Um ser vivo tão gordo e cheio de vida...e zás. matança em série.
Declaro-vos assassinos botânicó-psicóticos.

Não se faz.










Bota azeiteirice nas palmeiras,cá entre nós.

Águia Bitória disse...

eheh Pois, mas esses dois seres vivos estavam a matar os seres vivos que viviam por baixo, não havia solinho bom que passasse! ;) Não deixa de ser triste, mas pedimos desde já desculpa à doutora. :|

Anónimo disse...

... e quando me perguntarem se vivo naquela casa que tem duas palmeiras, responderei que vivo naquela casa onde vive uma rapariga com olhos de gata...

Águia Bitória disse...

ahahah E onde é que pára essa gatxinha, que eu ainda não dei por ela? ;)