segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Carta que veio do gelo



A neve põe a cabeça das pessoas a andar à roda… A prova disso é esta carta escrita pela minha rica progenitora à irmã, no distante ano de 1987, quando uma família do Litoral Norte foi, pela primeira vez, apanhada no meio da neve…



Quarta, 14 de Janeiro de 1987

Atão Natália!

Tudo bem?
É com um metro de neve (?!) que escrevo esta carta. Todas as comunicações estão cortadas e S.Bartolomeu encontra-se isolado do resto do mundo. Só conseguimos saber o que se passa pela rádio, já que a nossa T.V. não funciona devido a um espesso manto de neve que cobre o nosso telhado, impedindo a antena de captar o que quer que seja.
O Gusto não vai trabalhar há dois dias pois não consegue tirar o carro da garagem. Passa o tempo a rachar a pouca lenha que nos resta e teremos de aguentar com o que temos até o bom tempo voltar.
Em casa, tenho que descascar as batatas de luvas porque os dedos, adormecidos pelo gelo, não me obedecem.
A Mª João está constantemente debaixo de uma lâmpada para pintainhos para ver se não encolhe com o frio.
Quando acabará o pesadelo?
A Joana chora e diz a toda a hora:
- Mamã! Quero ir p´ro vôvô de Mijães (Ela diz Mijães, porque não sabe ainda bem falar, já se vê).
O Gusto anda muito tenso porque há dois dias que a barba dele deixou de crescer por causa do frio. Eu bem lhe digo que é porque anda nervoso, que ela voltará a crescer quando estiver mais calmo, mas ele está convencido que tem os poros entupidos com o gelo e diz que sem a barba, nada voltará a ser o que era. Às vezes, levanta-se de noite, e vai até ao espelho, talvez por sentir algum formigueiro (ou coisa parecida) no queixo, mas volta à cama abatido e desiludido.
A Mª João, coitadinha, ainda não se apercebeu da situação porque o anjinho ainda é pequenino, mas a Joana, que já se apercebeu de tudo, anda triste e perdeu a vontade de comer (!!).
Eu já não sei nem o que fazer, nem o que dizer. Éramos tão felizes!
Para cúmulo, a água congelou nos canos e temos que ir buscá-la ao poço.
Ontem, o Gusto atou-me a uma corda e, com uma pica e um balde, desci para o poço. A vela que eu trazia atada à testa apagou-se e dei um valente trambolhão no gelo. Graças a Deus, a queda não foi grave, mas eu já disse que hoje não voltava para lá e que era a vez dele de descer àquele inferno!
Querida irmã, sei que lá onde tu te escondes, está também muito frio.
Não desistas! É a fé que te salvará!
Marcha, marcha alegre e confiante, tu és nova e tens ainda muito que ver e cheirar. Pensa que, se estás mal, outros estão melhor do que tu, e talvez isso te sirva de consolo.
Unta o corpo com óleo de foca (haverá focas em Vila Real?) e fricciona-o com um pano de lã de carneiro velho e cansado.
Natália, estamos contigo! Luta, luta! Só faltam dois meses para a Primavera!
Antes de acabar, mando-te um pouco de Sol e espero receber notícias tuas (isto é se o carteiro não morrer congelado, entretanto...).

Tua irmã querida,
Fernanda


Em 1987 nevou na nossa Viana, e eu só precisei de um mês de vida para ver nevar! yeah!! Hoje, apesar do cruel desmame, lá deixei a lâmpada de lado, o meu pai continua muito macho, a minha mãe nunca mais teve de voltar a ir buscar água ao poço, nem a Joana voltou a perder o apetite. Ah, e recuperamos a felicidade, by the way...
P.S.: Sabem o que aconteceu no ano a seguir a ter nevado no meu Norte? Sabem? Sabem? Sabem? Estou há quase duas décadas à espera que o-sucedido-se-volte-a-suceder, e ninguém parece querer fazer-me a vontade...

2 comentários:

Susana disse...

entao? qd é q voltas a escangalhar por estes lados??

Korsakoff disse...

Volta!!!Estás perdoada!!!!!